A aplicação teórica de assuntos práticos e relativos á questão do ser adjudicado à alma do animal que nasce dentro de todos nós.

Quinta-feira, Agosto 02, 2007

Os Inóticos, Parte 2 Capitulo 1

Parte Dois

De novo, num dos bares mais comprometedores da cidade, duas personagens ine­vitavelmente suspeitas, estão sentadas numa mesa ao canto da sala a trocarem palavras de alto teor conspirativo.

— O imbecil que estava a estragar tudo teve o seu recadinho! — diz a persona­gem obscura.

— Sim, sim! — responde a silhueta com voz fanhosa a esfregar os olhos por trás dos grandes óculos de fundo de garrafa.

A personagem obscura abre um pacote de batatas fritas de presunto e começa imediatamente a comê-lo, enquanto fala com a boca cheia.

— Ouve lá, o primeiro carregamento está quase a chegar. Ai de ti se falhas logo na primeira vez! — ameaça a personagem obscura.

— Sim, sim! — responde a silhueta da voz fanhosa, enquanto faz um tique irri­tante.

— E olha, -CRUNCH- Ai, porra, o que é isto?- a personagem obscura cospe o conteúdo da boca para cima da silhueta com voz fanhosa. A silhueta fica cheia de bo­cados de batatas fritas de presunto e atrás dos óculos de fundo de garrafa encontra-se um boneco de plástico— Malditos brindes! Merda! Quase partia a placa! E dá cá isso pá! Não penses que te vou deixar ficar com isso!

— Bééé! — exclama a silhueta da voz fanhosa.

— Olha! É a primeira vez que falas! — diz a personagem obscura. — Até que en­fim que dizes alguma coisa diferente!

— Sim, sim! — responde a silhueta a sacudir o cabelo e a lançar os bocados de batatas fritas de presunto pelo ar.

— Oh, Deus!

— Sim, sim!

A personagem obscura, já farta de aturar o seu cúmplice, levanta-se da cadeira que estoicamente a tem sustentado durante todo este tempo e descarrega ruidosamente um gás intestinal que tem acumulado nos intestinos.

— Vou embora. Mas já sabes! Ele vai-te levar pessoalmente o carregamento ao local combinado! Agora não te esqueças. Falta pouco tempo.

— Sim, sim!


*

Passou-se quase um mês desde aquele dia infeliz. Raul conseguiu sair da prisão, graças à generosa doação em dinheiro vivo que a menina Joana fez ao chefe da polícia. Este apenas tratou de esquecer o caso e destruiu uma fita em que Raul estava como protagonista a dar o alarme de bomba.

Raul trabalha agora, na editora Boa — Esperança. Trabalha como tutor de cursos por correspondência. É aquele emprego que ele tanto desprezava e dizia que era para atrasados mentais.

Mas, isto faz parte do plano de vingança que engendrou para se desforrar do parvo do Barracuda. Este, não pôde recusar o emprego ao Raul, porque pensava, que se o fizesse, Raul trataria de o eliminar.

A menina Joana conseguiu, finalmente, domar o Raul e convida-o para almoçar todos os dias. Ela está ao corrente do plano de vingança.

Raul, está sentado à mesa de um restaurante em frente da menina Joana.

— Então Raul, já decidiste? — pergunta a menina Joana mais uma vez, já farta de esperar que Raul escolha o prato.

— Não sei... — responde Raul.

A menina Joana vira-se para o fazfavor e diz:

— Traga o escabeche e o puré de cenoura do costume, se faz favor.

— Como é que sabes que eu ia pedir isso?

— Comes sempre o mesmo desde que cá vimos! É natural que comas as sardi­nhas de escabeche outra vez.

— É.

Os dois abstraem-se ao olhar pela janela para os carros a passar.

De repente, a menina Joana vira-se para Raul e pergunta-lhe uma coisa que tem vindo a tentar perceber desde que o conheceu.

— Raul, porque é que estás constantemente a mudar de penteado?

Raul pensa por uns momentos e responde:

— Ora bem. Isto segue algumas regras...

— Regras? — interrompe a menina Joana

— Sim, regras. Bastante simples. E também uma pequena tabela de penteados fi­xos.

A menina Joana ouve atentamente o discurso de Raul enquanto belisca um pão.

— ...está tudo relacionado com a minha disposição. Com a minha moral. Por ve­zes também utilizo o meu cabelo para atingir um objectivo, mas geralmente o meu cabelo é o espelho da minha alma.

O fazfavor chega e pousa as travessas de comida na mesa. Raul, todo babado com o escabeche esquece logo o assunto e começa a comer.

Enquanto comem, vêem o Barracuda a passar na rua com um grande embrulho.

— Olha! O parvo do Barracuda — diz a menina Joana — sabias que ele tem an­dado a sair mais cedo todos os dias e quase sempre com um embrulho enorme debaixo do braço!

— Ai, sim? — diz Raul entusiasmado — talvez esteja metido em algum negócio sujo! Conta-me mais.

A conversa continuou até ao final da refeição. A seguir foram dar uma volta pelas redondezas e por fim voltaram para a editora para acabar o dia de trabalho.

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